O oceano que Cabo Verde deseja construir.
Para Cabo Verde, o oceano atlântico é muito mais do que a extensão de água que rodeia as suas10 ilhas.
Está presente na alimentação das famílias, no rendimento das comunidades piscatórias, no turismo, na ligação entre as ilhas, na cultura e na identidade do país.
No entanto, o oceano encontra-se igualmente no centro de alguns dos principais desafios do desenvolvimento. Entre estes, os impactos das alterações climáticas, a poluição marinha, a pressão sobre os ecossistemas e a necessidade de criação de novas oportunidades económicas para os jovens, as mulheres, os empreendedores e as gerações futuras.
Foi esta relação existente entre o oceano, as pessoas, o desenvolvimento e as oportunidades que o mar oferece que a exposição "Economia Azul em Ação" das Nações Unidas procurou tornar visível durante a V Conferência da Década do Oceano, que decorreu entre 23 e 24 de julho na ilha da Boa Vista.
Exposição "Economia Azul em ação"
Através de ações, resultados, dados, conhecimentos técnicos e conteúdos audiovisuais, o espaço apresentou uma visão integrada da contribuição do sistema das Nações Unidas em Cabo Verde para uma economia azul mais dinâmica, sustentável, inclusiva e resiliente.
Mais do que reunir iniciativas de diferentes agências, a exposição demonstrou a interligação entre desafios, soluções e oportunidades. A proteção da biodiversidade marinha, a sustentabilidade das pescas, o reforço da resiliência das comunidades costeiras, a promoção de um turismo responsável, o estímulo à inovação e a criação de empregos dignos fazem parte de uma mesma transformação.
Realizada sob o lema “Economia Azul: Caminhos Sustentáveis”, a conferência reuniu cerca de 300 representantes de instituições públicas, autarquias locais, universidades, organizações da sociedade civil, empresas, comunidades locais, jovens, parceiros de desenvolvimento e organizações internacionais, a fim de refletir sobre a forma de transformar o potencial marítimo de Cabo Verde em resultados concretos.
Quatro caminhos para uma economia azul inclusiva – UN Blue Economy Flagship program
A exposição revelou parte do trabalho já realizado em colaboração com o governo, instituições nacionais e parceiros de desenvolvimento. No entanto, também apresentou os próximos passos. É necessário aumentar a dimensão das soluções e aprofundar a articulação entre elas.
E neste contexto que surge a iniciativa UN Blue Economy Flagship que visa reunir diversas intervenções numa abordagem integrada para a transformação sustentável da economia azul em Cabo Verde.
O programa organiza esta intervenção em quatro áreas interligadas, demonstrando que uma economia azul sustentável requer soluções que conciliem a proteção ambiental, a criação de valor económico e a inclusão social.
A primeira área centra-se nas pescas sustentáveis, criação de valor e o acesso aos mercados. Para as comunidades piscatórias, proteger os recursos marinhos significa salvaguardar rendimentos, melhorar as condições de trabalho, reforçar a segurança alimentar e criar novas oportunidades ao longo das cadeias de valor.
A segunda area aposta no turismo azul sustentável e infraestruturas costeiras mais resilientes. Em países profundamente ligados ao mar, a proteção das zonas costeiras significa também a proteção de comunidades, habitações, empregos, empresas e serviços essenciais, preservando simultaneamente os recursos naturais que sustentam grande parte da atividade turística.
A terceira área conecta a biodiversidade marinha, a ciência e a resiliência climática reconhecendo que a conservação dos ecossistemas, a ciência e a capacidade de antecipar riscos são fundamentais para proteger meios de subsistência, orientar políticas e apoiar decisões de investimento.
A quarta área centra-se na economia circular azul, a inovação e a criação de postos de trabalho dignos, realçando o potencial de transformar resíduos em recursos, de estimular novos modelos de negócio e de mobilizar a tecnologia, o empreendedorismo e a criatividade para criar soluções e oportunidades, sobretudo para os jovens e as mulheres.
Estes quatro eixos representam diferentes dimensões de uma mesma transformação. A lógica é simples. Se os desafios estão interligados, as soluções também devem estar!
O oceano no centro das parcerias
A exposição recebeu a visita do Presidente da República de Cabo Verde, do Diretor-Geral da UNESCO, e de Jean-Paul Adam, representante do Escritório da Assessora Especial das Nações Unidas para África (UNOSAA), bem como de representantes de vários municípios, do corpo diplomático, de organizações internacionais, da academia, do setor privado, da sociedade civil e da juventude.
Estas visitas não só possibilitaram a apresentação das intervenções de várias agências, como as intervenções do PNUD, UNESCO, UNIDO e da FAO, como também reforçaram a ideia de que, para um pequeno estado insular em desenvolvimento como Cabo Verde, o oceano ocupa um lugar central no seu presente e no seu futuro.
A conferência destacou igualmente a importância de Cabo Verde assumir plenamente a sua condição de Estado oceânico e de continuar a aproximar a ciência, as políticas públicas e o investimento das necessidades concretas das comunidades.
Para as Nações Unidas em Cabo Verde esta visão exige uma resposta conjunta. A economia azul é uma das três áreas estratégicas de aceleração dos ODS definidas no plano de trabalho conjunto de 2026 entre as Nações Unidas e o governo de Cabo Verde, juntamente com a transformação digital e o desenvolvimento local.
Esta prioridade traduz a ambição de apoiar uma gestão sustentável dos recursos marinhos, capaz de gerar valor económico, criar emprego, reforçar a resiliência e ampliar oportunidades, sobretudo para as pessoas e as comunidades mais vulneráveis.
O oceano que queremos começa agora
No final da conferência, quando se partilhavam as últimas mensagens sobre o futuro dos oceanos e as ações necessárias para Cabo Verde, uma tartaruga marinha aproximou-se da praia para pôr os ovos. Tratou-se de um momento inesperado e profundamente simbólico.
Lembrou os participantes de que, para além dos documentos, dos painéis e das declarações, há vidas que dependem das escolhas feitas hoje.
A conferência terminou, mas as reflexões permanecem, assim como o forte compromisso de agir agora.
Como pode Cabo Verde criar mais valor a partir do oceano, sem pôr em causa os recursos das gerações futuras? Como se pode garantir a participação e os benefícios das mulheres, dos jovens, pessoas com deficiencies, dos pescadores e das comunidades costeiras nesta transformação? Como se poderá mobilizar ciência, investimento e parcerias suficientes para se passar da ambição à implementação?
Nenhuma instituição conseguirá responder a estas questões sozinha. É necessário reunir conhecimentos, fortalecer e expander políticas públicas, financiamento, inovação, participação das comunidades e parcerias capazes de transformar esse potencial em resultados. As Nações Unidas já estão trabalhando ao lado do Governo, da Sociedade Civil, Setor Privado, Academia e Parceiros para isso. E queremos fazer mais e mais rápido.
Porque para Cabo Verde, proteger o oceano significa proteger vidas, criar oportunidades e construir um futuro melhor.